domingo, 29 de Novembro de 2009
terça-feira, 24 de Novembro de 2009
Gayvotas VI
«No recente debate do casamento entre pessoas do mesmo sexo, o mais curioso é ouvir dizer que se trata de um direito fundamental. Alguns põe um ar grave e afirmam estarem em causa valores básicos. Mas, se é mesmo tão básico, porque ficou omisso em trinta e tal anos de democracia? Porque não consta nos documentos de referência e declarações de direitos dos últimos séculos? Como é possível os militantes, que hoje o reivindicam com urgência, terem-no esquecido tanto tempo? Mas estas afirmações, mesmo se caricatas, apontam para um dos maiores problemas culturais da actualidade.
A luta pela justiça social é o valor supremo da nossa civilização. Outras épocas e regiões buscavam a sabedoria, glória, beleza, mas a nossa quer uma sociedade justa e livre. Todos fomos educados colocando a equidade no lugar máximo e vendo a sua busca como imposição definitiva e universal. Precisamente por isso a nossa sociedade montou múltiplos mecanismos de protecção, equilíbrio e compensação que pretendem eliminar a maior parte dos agravos.
[...]
Em certos casos, as ideologias conduzem mesmo a resultados terríveis. Na luta pelo aborto, por exemplo, os activistas vêem-se cúmplices de um crime de sangue, com morte de seres humanos. Não há dúvida que é morte e não há dúvida que é humana. Por muitos argumentos e elaborações que arranjem, estão do lado da agressão aos mais fracos entre os mais fracos. Também a banalização do divórcio foi feita evidentemente à custa dos desfavorecidos. A lei facilita a vida a marialvas, adúlteros e irresponsáveis, deixando desprotegidos as crianças, mulheres, pobres, idosos. No calor da argumentação ideológica é possível disfarçar, mas o quotidiano de sofrimento desafia as falácias dos activistas.
Aliás, como os proletários costumam ser conservadores na vida e família, a esquerda vê-se cada vez mais a defender interesses burgueses. Mesmo agora, no casamento de homossexuais, é difícil defender que se trata do socorro de classes desprotegidas, prioridade social, necessidades essenciais. A retórica repete tiradas bombásticas de outros tempos, mas a fragilidade, complexidade e ambiguidade da questão é muito maior.
Existe ainda uma ironia final gritante. Que é mais corajoso, lutar por causas libertinas que toda a opinião pública tolera, ou defender os valores exigentes do casamento, família e vida? Quem são realmente rebeldes, os membros do Bloco de Esquerda que a imprensa exalta e os intelectuais apoiam, ou os que enfrentam as teses politicamente correctas? Onde está hoje a verdadeira heterodoxia, rebeldia, atrevimento? Quando a esquerda se torna estabelecida, burguesa, dominante, quem é realmente revolucionário?»
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12:06
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Ecos do mundo
segunda-feira, 23 de Novembro de 2009
Gayvotas V
Católicos, muçulmanos, judeus, evangélicos e hindus encaram com desagrado a intenção política de alterar os contornos jurídicos do casamento, alargando-o aos homossexuais. A excepção são os budistas que defendem essa opção se ela “tornar alguém mais feliz”.
A posição do presidente da União Budista Nacional, Paulo Borges, contrasta com a dos diferentes líderes religiosos ouvidos pelo DN. “De acordo com os princípios do budismo de pretender libertar a mente de tudo o que faz sofrer, nessa perspectiva, se o casamento entre pessoas do mesmo sexo contribuir para tornar alguém mais feliz então somos a favor”, afirma. O presidente desta confissão em Portugal diz que embora exista uma posição dos budistas tibetanos, que refere que a relação sexual entre pessoas do mesmo sexo não é aconselhada para uma evolução espiritual, a questão não é moral: “é apenas quanto à progressão espiritual, ao nível energético”.
Diário de Notícias, 23-11-09 [texto completo aqui]
O princípio é muito simples de compreender: sendo a felicidade humana o objectivo primordial, então tudo quanto a proporcione (sem causar a infelicidade de outros, entenda-se) é legítimo. E apesar de acreditarem que a relação entre pessoas do mesmo sexo se encontra num plano inferior da evolução espiritual. Benditos.
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11:07
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Ecos do mundo
quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
Gayvotas IV
[...]
No referendo do aborto eu, como todos os eleitores, tinha uma decisão difícil a tomar sobre como deve ser considerado um feto até às 14 semanas: é vida? É uma pessoa humana? É apenas uma possibilidade? É parte da mãe? É alguma dessas coisas mas deve, dentro de certos limites, ser entendido no contexto da saúde pública e da situação social que leva ao aborto? etc. Uma vez que havia uma assimetria básica entre o eleitor, a mulher grávida e o feto, convocou-se o eleitorado a decidir. E o eleitorado, com milhões de razões diferentes, decidiu.
Agora, o que temos? Duas pessoas livres e adultas, que presumivelmente se amam, e que desejam casar. Por que raio vou eu decidir? Por que terei eu de decidir? Serão aquelas pessoas menos do que eu? Terei eu tutela sobre eles? Nunca ninguém me veio pedir conselho antes de casar; e ainda bem, porque eu nunca o daria.
E recuso-me a ser conselheiro matrimonial de gente que não conheço, e a quem desejo apenas que sejam felizes, casados se assim o entenderem, sem a minha opinião ou a opinião do dr. Ribeiro e Castro. Qualquer voto sobre isto seria sempre um voto sobre negar a certos cidadãos direitos de que a maioria usufrui.
Só vejo uma forma de votar sobre este assunto de forma universal e abstracta. Endosso esta alternativa de compromisso aos adeptos do referendo, na esperança de que lhes possa ser útil. A única forma de votar sem discriminar é levar a referendo o casamento. Não o casamento gay, mas o casamento em geral. Se o dr. Ribeiro e Castro acha que deve votar sobre o casamento dos outros, certamente não se importará que os outros votem sobre o seu casamento. Os adversários da igualdade no casamento têm opinião sobre o casamento dos outros, e querem ser a eles a decidir; por uma questão de equidade, não podem recusar que outros decidam sobre o casamento deles.
Se quiserem referendar o casamento de todos os cidadãos, homossexuais ou não, terão finalmente um argumento logicamente inatacável. Casamento: abolir ou não? Francamente, pergunto-me qual seria o resultado.
Rui Tavares, «Uma Sugestãozinha», Público, 18-11-2009.
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Ecos do mundo
sábado, 14 de Novembro de 2009
Gayvotas III
«Se eu fosse gay, levaria a mal que houvesse uma espécie de casamento – que não era casamento – que tivesse um nome e um carácter diferentes. Mentira: não é preciso ser-se gay. Basta ser-se justo. Pensar não é preciso.
A sexualidade sempre foi despromovida, como as cores e os escritores favoritos. Dizer que os homossexuais não se podem casar é como dizer que os negros, os judeus ou as pessoas que não gostam de ver televisão não se podem casar. É absurdo.
É absurdo falar em homossexuais. Vamos arrepender-nos de não termos sido capazes de deixar a discriminação estúpida, baseada na observação de haver pessoas que são diferentes da maioria.
Casemo-nos mais ou menos. Mas não prestemos atenção a quem se case. Mal ou bem. Depende de quem se casa com quem. A sexualidade nem sequer um pormenor é.»
Miguel Esteves Cardoso, «Que Case Quem Queira», Público, 14-11-2009.
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sexta-feira, 13 de Novembro de 2009
Gayvotas II
Um homem e uma mulher adultos decidem casar. Não precisam de provar que estão apaixonados, que têm a capacidade de procriar, que querem viver na mesma casa, que querem uma plena comunhão de vida. Existem muitos casamentos sem amor entre os cônjuges, sem filhos biológicos, sem intenção de constituição de família para além do próprio casal e dos familiares de ambos, sem comunhão plena de vida. Ou seja, já existem, na sociedade em que vivemos, muitas formas diferentes de concretização da instituição matrimonial. A eliminação da discriminação sexual no artigo nº 1577 do Código Civil é apenas a assunção plena dessa variedade sociológica de concepções do casamento.
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14:24
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segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
Gayvotas
Ainda não se sabe quando se iniciará, mas é certo que, em breve, a Assembleia da República vai debater e votar uma proposta legislativa que eliminará a diferença de género sexual entre parceiros enquanto quesito do casamento civil. O Código Civil actual diz o seguinte:
ARTIGO 1577º
(Noção de casamento)
Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código.
Daqui se deduz que, a ser aprovada a alteração do Código Civil que consiste na eliminação da expressão a negrito, todos os casais que desejem ver reconhecido pelo Estado o seu matrimónio o poderão fazer em igualdade de circunstâncias, independentemente de se tratar de um homem e uma mulher, de dois homens ou de duas mulheres.
Também já se percebeu que começa a crescer um movimento que, sendo contra esta alteração, pretende levar a questão a referendo – jogando no previsível conservadorismo da maioria no momento de votar. E recomeçou, sobretudo nos jornais e nos blogues, o debate que opõe quem é a favor e contra essa medida.
Na prática, está-se apenas a discutir a possibilidade legal do «casamento homossexual», já que o chamado «casamento heterossexual» é reconhecido por lei. Na prática, está-se novamente a discutir o fantasma da homossexualidade e da ameaça que ela constitui para uma cultura dominantemente heterossexual, apesar de a sexualidade humana ser tudo menos reduzível a esses dois padrões de comportamento sexual.
Num pungente e lúcido livro publicado há uns anos atrás (Gayvota), Guilhermo de Melo dava testemunho do mal que a sociedade faz aos seus filhos, com base na sua própria experiência de vida e na correspondência que foi recebendo ao longo de muitos anos, enquanto jornalista do Diário de Notícias. Muitos desses relatos e crónicas quase queimam de tão pungentes: são mães que choram o suicídio de filhos incapazes de assumir a sua homossexualidade, jovens ostracizados pela família ou pelos amigos, na escola, quando a sua homossexualidade é revelada ou descoberta, a dor de homens e mulheres casados apenas para mascararem a sua homossexualidade, etc.
Se é verdade que, à superfície, a sociedade portuguesa parece mais tolerante para com as pessoas que amam parceiros do mesmo sexo, tenho sérias dúvidas de que essa «tolerância» seja consistente, quando feita uma análise em profundidade. Talvez os especialistas na matéria (cf. Miguel Vale de Almeida ou o autor do blogue Renas e Veados) tenham dados mais seguros sobre isto. (Há um pequeno teste que pode ser feito a qualquer um: consiste em perguntar, a qualquer cidadão que se afirme tolerante, como reagiria ao facto de se tornar no destinatário da paixão de uma pessoa do mesmo sexo, ou seja, se esse acontecimento seria vivido da mesma forma no caso de a pessoa apaixonada ser do sexo oposto.)
Tive uma educação privilegiada: praticamente desde a infância, os meus pais nos ensinaram que todas as formas de amor são humanas e normais e todas possibilitam o encontro com a Felicidade. E não ensinavam só: exerciam na prática esse ensinamento, na forma como se relacionavam com amigos e familiares e guiavam o nosso comportamento nos meandros dessa rede de relações. Sei, contudo, que essa não foi/não é a realidade da enorme maioria das pessoas. E porque tento manter-me atento à sociedade em que vivo, conheço muitos sintomas (graves) dessa doença social, sobre os quais tentarei escrever noutro momento.
O reconhecimento do direito ao casamento a todas as pessoas adultas, independentemente do sexo, não obriga ninguém a exercê-lo nem põe em causa os casamentos já realizados. E daria um sinal muito forte à sociedade, contribuindo, assim, para que muito do sofrimento que ainda persiste em tanta gente pudesse, a pouco e pouco, apaziguar-se.
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11:25
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sábado, 7 de Novembro de 2009
Antes da Leitura
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sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
Leituras
Não se trata de um «grande romance», não. No entanto, a dada altura, lê-se uma frase daquelas que vale a pena fixar:
A única diferença entre nós e Deus é o facto de nós termos esquecido que somos divinos.
Não é um saber novo, mas é sempre novo lembrarmo-nos disso.
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quinta-feira, 8 de Outubro de 2009
Miragem Numa Bolha de Lama Talvez
e lá vamos para Tar (miragem numa bolha de lama talvez) pela estrada das nossas aflições empurradas para o fundo do silêncio e lá vamos para Tar carregados de nós e da nossa doce esperança e de nada sabermos do futuro porque em cada momento um acontecimento nos diz trai e nos distrai e lá vamos para Tar muito redondamente angulosos e lá vamos para quem sabe pela última vez Tar insensatos ou nervosamente adormecidos
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12:35
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domingo, 27 de Setembro de 2009
De quando damos conta de que falhou tudo o que fizemos para conseguirmos um amor
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11:29
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quinta-feira, 24 de Setembro de 2009
Do Bom Trigo
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11:40
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domingo, 20 de Setembro de 2009
Uma Sequência de Cantigas Bonitas, «como a cantiga da pena»
You are so beautiful to me
You are so beautiful to me
Can't you see
Your everything I hoped for
Your everything I need
You are so beautiful to me
Such joy and happiness you bring
Such joy and happiness you bring
Like a dream
A guiding light that shines in the night
Heavens gift to me
You are so beautiful to me
Unchain my heart
Baby let me be
'Cause you don't care
Let me
Set me free
Unchain my heart
Baby let me go
Unchain my heart
'Cause you don't love me no more
Every time I call you on the phone
Some fella tells me that you're not at home
Unchain my heart
Set me free
Unchain my heart
Baby let me be
Unchain my heart
'Cause you don't care about me
You've got me sowed up like a mellow case
But you let my love go to waste
Unchain my heart
Set me free
I'm under your spell
Like a man in a trance baby
Oh but you're no doubt aware
That I don't stand a chance
Unchain my heart
Let me me go my way
Unchain my heart
You are in me night and day
Why leave me two a life of misery
When you don't care about the beans for me
Unchain my heart oh please
Set me free
Alright
I'm under your spell
Just like a man in a trance oh baby
But you're no doubt aware
That I don't stand a chance
Please unchain my heart
Let me go my way
Unchain my heart
You are in my night and day
Why leave me to a life of misery
When you don't care about the beans for me
Unchain my heart
Please set me free
Oh set me free
Oh woman why don't you do that for me
You don't care
Won't you let me go
That you don't love me no more
Like a man in a trance
let me go
I'm under your spell
Like a man in a trance
And you're no doubt aware
That I don't stand a chance no
Oh
You don't care
Please set me free
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13:11
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quarta-feira, 12 de Agosto de 2009
Debate com Diderot (XXIV): outras vocações
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sexta-feira, 7 de Agosto de 2009
O Génio, os Olhos e a Voz
O Que Será (À Flor da Pele)
Letra: Milton Nascimento
Música: Chico Buarque
O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita
O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite
O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo
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Goldmundo
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08:56
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