Quarta-feira, 25 de Agosto de 2010

Um Mestre

M. Night Shyamalan é um jovem Mestre. Filme após filme, vai-nos contando histórias destinadas a serem vistas, ouvidas e sentidas pelo coração: The Sixth Sense, Unbreakable, Signs, The Village, Lady in the Water, Happening... e, agora, The Last Airbender. E mais uma vez, como os mestres dos grandes ritos iniciáticos, não nos entrega a verdadeira história de bandeja: obriga-nos a trabalhar, como o menino que, antes de olhar de frente e aceitar o sofrimento que vive dentro dele, não é capaz de usar o gigantesco poder da água. Está lá tudo: os grandes mitos orientais; a imensa diversidade humana; os senhores da guerra; o povo conformado; o dragão sábio; os peixes Yin (o espírito da Lua) e Yang (o espírito do Oceano); a princesa dos cabelos brancos que entrega a vida por amor abnegado à humanidade; o (des)equilíbrio dos quatro elementos primordiais. Mas, sobretudo, está o menino. O menino que não queria ser líder, o menino que só queria brincar com os outros meninos, o menino que é o único ser humano com a capacidade de dominar o Ar, a Água, a Terra e o Fogo e de atravessar a fronteira que (afinal, não) separa o mundo dos humanos do mundo dos espíritos. Avassalador.

Conselho aos incautos: não o vejam com a cabeça, porque, visto dessa forma, não deve ter interesse nenhum.

Sexta-feira, 13 de Agosto de 2010

Um Hino

O mar com o meu amor

A Maria João voltou a entrar no mar, terça e quarta à tardinha, dois dias seguidos. Voltou ao mar depois de um ano em que o corpo dela foi invadido, envenenado, cortado e queimado. Um ano em que ela teve de fazer, como ela disse, “um luto por mim própria”.

E agora voltou. Voltou inteirinha e rosada, bonita e branquinha de fugir ao sol, cheia de caracóis novos, linda de viver, no biquíni Matthew Williamson que foi interrompido no ano passado. Entrou no mar como se fosse natural que o mar tivesse esperado por ela, a fazer-se manso para ela voltar, para que ela se refizesse sereia outra vez.

Assim foi. A água do mar, na segunda tarde, era exactamente da cor dos olhos dela. O mar sem ela tem sido uma coisa só. Tenho-me sentido muito sozinho quando vou nadar. Mas com ela lá dentro e eu ao pé dela, os dois a rir e a brincar, voltou a ser o mar como deve ser.

E ela, peixinho da minha alma, mergulhou e molhou as centenas de caracóis que entretanto foram nascendo e voltando, cada um tão novinho como os primeiros que teve, quando era bebé.

Parece um milagre que tudo tenha voltado. De um Agosto a outro. No meio de todos os medos, nunca há a esperança de que as coisas voltem a ser como foram. Mas voltaram. Ainda mais bem-vindas do que eram, por se terem ido embora durante um ano inteiro, todos os dias.

Volta tudo de repente. A alegria e o amor já lá estavam. Mas faltavam uma ou duas coisas simples, como ir ao mar e dar beijinhos dentro do mar.

Miguel Esteves Cardoso, «Ainda Ontem». In Público. 13-08-2007

Quarta-feira, 28 de Julho de 2010

Sobre Montaigne, Sobre viver

Tenho lido nos últimos tempos um livro sobre Montaigne por uma autora inglesa chamada Sarah Bakewell. Todos os seus vinte capítulos são tentativas de resposta à pergunta que Montaigne encontrou na filosofia antiga (e já ficando fora de moda face a uma filosofia mais abstrata) e a que se dedicou então — Como Viver?

P: Como viver? R: Não penses na morte.

P: Como viver? R: Presta atenção.

P: Como viver? R: Nascendo.

P: Como viver? R: Lê muito, esquece a maior parte, sê lento de raciocínio.

P: Como viver? R: Sobrevive ao amor e à perda.

P: Como viver? R: Faz uso de pequenas manhas.

P: Como viver? R: Questiona tudo.

P: Como viver? R: Mantém um quarto só para ti.

P: Como viver? R: Vive com os outros.

P: Como viver? R: Desperta do sono do hábito.

P: Como viver? R: Com temperança.

P: Como viver? R: Preserva a tua humanidade.

P: Como viver? R: Faz algo que não foi feito antes.

P: Como viver? R: Vai ver o mundo.

P: Como viver? R: Faz um bom trabalho, mas não demasiado bom.

P: Como viver? R: Filosofa apenas por acaso.

P: Como viver? R: Reflete sobre tudo, não te arrependas de nada.

P: Como viver? R: Abandona.

P: Como viver? R: Sê comum e imperfeito.

P: Como viver? R: Deixa que a vida seja a sua própria resposta.

Roubei as respostas a Sarah Bakewell, que as roubou a Montaigne. Montaigne roubou principalmente ao grecorromano Plutarco, por vezes sob a forma de histórias intrigantes.

Rui Tavares, «Consoante Muda», Público 28/07/2010 [Excerto.]

Quinta-feira, 22 de Julho de 2010

Gayvotas XI

Zé Borrego, homem de grande compleição física, de grande fé e igualmente dotado de uma grande dose de crendice, deixou um dia [no final da década de 60] as serranias da Beira Baixa e rumou a Lisboa. Agia, conforme confessou mais tarde ao agente da Judiciária responsável pelo seu caso, mandado por Nossa Senhora. A sua missão, nas ruas de Lisboa, era acabar com o pecado.

O pecado, segundo a cartilha de Zé Borrego, tinha um rosto: a homossexualidade masculina. Foi assim que se aproximou de cinco pessoas, que as seduziu e que, em quartos de pensões, acabou por as estrangular. Depois, esquartejou-as, meteu os restos dos seus corpos em sacos plásticos e espalhou-os junto à água. Apareceram restos mortais em Paço de Arcos, mas também nas margens do Trancão, em Sacavém.

Após semanas de investigações a polícia chegou a Zé Borrego, que depressa confessou e justificou os crimes.

Os dias que se seguem são passados com o suspeito a prestar declarações na Judiciária e a ir dormir à antiga Penitenciária de Lisboa. Com o decorrer dos depoimentos Zé Borrego ganha confiança com o agente responsável pelo processo. Criam uma certa empatia. O homem a quem Nossa Senhora ordenou um dia que descesse a Lisboa para acabar com a homossexualidade masculina passou a ter no polícia um amigo, que escutava as suas razões e não as reprimia a murro e pontapé. É que, na Penitenciária, os seus crimes já lhe haviam merecido algumas surras. Zé Borrego acaba por dizer ao polícia que tem ainda de matar mais duas pessoas. Desta feita já não são homossexuais. São dois guardas prisionais que o terão espancado em diversas ocasiões. O agente da Judiciária, sempre paciente, pede-lhe um favor: que não mate mais ninguém.

A honra não é palavra vã para Zé Borrego, que aceita o pedido do polícia (para não voltar a matar), mas que impõe uma condição. Diz que para poupar a vida aos guardas prisionais tem de acabar com a sua.

“Você não se mate aqui [nas instalações da Judiciária], que isso é dar-nos ainda mais trabalho”, responde-lhe, meio distraído, o polícia. Zé Borrego, homem de palavra, volta nessa noite para a Penitenciária de Lisboa. Na manhã seguinte é encontrado morto na cela, pendurado pelo pescoço.

José Bento Amaro, «A história de Zé Borrego, o único assassino em série português», in Público, 22/07/2010.

Sábado, 3 de Julho de 2010

Correspondência

Terça-feira, 15 de Junho de 2010

Abraças-me no teu abraço fogoso de Verão

E eu rolo pela duna alta da praia desconhecida
Onde o mar, aceso e fundo, me traz a vida
Macia e densa e firme e agarrada ao chão

E em cada dia descubro que afinal eu já sabia
Que virias ao encontro do que em mim houvesse
De mar e de arrepio, de cadência e prece,
Porque em mim já estava a sede que te sacia

Sábado, 12 de Junho de 2010

Leituras

Beija-me, António!

O meu neto António, com um ano e um quarto, dá beijinhos a toda a gente menos a mim. Comigo dá longos passeios e reflecte. Trata-me como um contemporâneo. Dá-me a mão, para que eu o conduza aos lugares interessantes da praia e do mar que ele confia que eu conheço.

Mas beijinho? Nem um. Engatou e beijou todas as meninas e mulheres que viu. Não lhe escapou uma, fosse qual fosse a idade, novidade ou parentesco. Nunca vi um mulherengo tão pequeno. Ou tão bem sucedido. Não perdoa nem falha. É um perigo alegre, este assassino.

Nem tão-pouco se limita ao sexo feminino. Embora prefira a minha sobrinha-neta Inês, por quem se apaixonou pelo menos tanto como pela tia-avó Maria João (a quem chama “Tiá”, por ser tão nova), também mantém abertas as hipóteses de ser gay, beijando com o mesmo encanto o Pedro, irmão da Inês. Beija flores; o nosso gato Agostinho; e até ursinhos do Benfica, oferecidos pelo meu irmão Paulo. No fundo, qualquer ser humano, animal ou vegetal que lhe ofereça uma bochecha é beijado.

Mais do que um beijoqueiro, o António é um príncipe-homenzinho que cedo aprendeu a dominar o poder do beijo. Regozija no usufruto desse poder e sobre mim, pela negação, o exerce, o pequeno manipulador e sacana.

Ele tem-me nas palminhas das mãos. À espera do beijinho – ou abraço – que não nega a mais ninguém. Está-me a desafiar. Está a ganhar-me. Eu rendo-me a ti, António.

Mesmo sabendo que de nada me serve. Ó pá, beija-me, que eu já não aguento mais.

Miguel Esteves Cardoso, «Ainda Ontem», in Público, 12-6-2010

Terça-feira, 8 de Junho de 2010

A Excepção e a Regra

Estranhem o que não for estranho.

Tomem por inexplicável o habitual.

Sintam-se perplexos ante o cotidiano.

Tratem de achar um remédio para o abuso

Mas não se esqueçam de que o abuso é sempre a regra.

Bertolt Brecht

Terça-feira, 20 de Abril de 2010

Correspondência

Um Novo Mundo

O meu neto António, que tem um ano e mês, já fala – mas ainda não conversa. Mas exprime-se muito bem. E ai de quem não compreender ou obedecer os desejos bem claros do nosso novo Rei. Embora recompense com magnanimidade quem não o contrarie. A mãe dele, a minha filha Tristana, pede-me para falar com ele em inglês. Pois bem. Assim farei. Até porque, quando cá esteve no sábado, o António e eu entendemo-nos como se estivéssemos num western. Só com olhares, sorrisos e sobrancelhas. Ele era o triunfante Gary Cooper em High Noon. Eu era Lloyd Bridges, o subxerife que desiste.

O neto é um recriador de atenções. Pára numa flor; depois noutra; examina um pão. Força-nos a reparar nas coisas que nos escaparam. Quando tentamos fazer o mesmo (“Olha os patinhos, António!”), não liga. Desobedece e, desobedecendo, mostra. Não somos nós que lhe mostramos o velho mundo – é ele que nos deixa entrar no mundo dele. É novinho em folha. [...]

Miguel Esteves Cardoso, «O duelo inexistente» (Ainda Ontem), Público 20-04-2010

Sexta-feira, 16 de Abril de 2010

Correspondência

Domingo, 11 de Abril de 2010

Santo Antão


E dos vulcões nasceu a vida

Dependurada nos ramos da lava adormecida
Feridas de pedra onde também o mar se aninha.

Sexta-feira, 26 de Março de 2010

Nas Origens

Porque me dás os dias mais limpos e és cúmplice dos meus crimes. Porque reinas nas minhas noites e travas comigo as batalhas que me acordam. Porque não temes os ferimentos de uma guerra absurda – e te enfurece aquilo para que antes nem nome tinhas. Porque não cedes aos atavios nem à vaidade da tua grandeza inesperada, sempre inesperada. Porque sabes que nada é seguro e, ainda assim, caminhas vertical. Porque, quando as batalhas da vida te enfraquecem, escasseia o Sol. Porque assim me levas e te deixas levar para onde nada está concluído e impera o incerto. Porque, se um dia me faltares, não terei precavido o susto.

Segunda-feira, 15 de Março de 2010

Correspondência

«Antes os outros se ofendam que os nossos se firam.»

Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010

Leituras

A cada um toca alguma parte na acumulação de sofrimento que há no mundo. As causas do sofrimento acumulam-se e todos temos parte nisso. Todo o mal do mundo se liga de algum modo a raízes de mal em cada pessoa. De todo o mal pode dizer-se que, de algum modo, cooperamos todos na sua produção ou, pelo menos, no seu aumento ou excesso. De nenhum mal podemos dizer que nos vem completamente de fora ou que é completamente alheio à nossa vontade.

Juan Masiá, A sabedoria do Oriente

Domingo, 31 de Janeiro de 2010

Debate com Diderot XXV: O Abominável Actor Cortesão

Para o M. G.

Abomino os actores cortesãos e a sua representação narcísica, cujo único fito é provocar a rendição do público aos efeitos minuciosamente preparados. A isso reduzem a Arte do Humano no Jardim dos Deuses, negando-se a nós enquanto espelho, de nós fazendo o espelho em que se miram.

E abomino o público que vai assistir à função com o intuito de alimentar a obscena sede de glória dessas pseudoputas vampirescas travestidas. São aqueles que no final lhes gritam «Bravo, bravo!», assumindo sem vergonha que deixaram o coração, a alma e a inteligência à porta do Teatro.

E é assim que a burguesia faz as suas orgias e se droga legalmente, sem temer a brigada de costumes.

São mais respeitáveis aqueles que, nas margens da cidade, nos becos, nos bairros sociais, nas ruas escusas, se injectam para aguentarem o insuportável.